Tempestade
Ela saltou por sobre o parapeito da janela do primeiro
andar, mal seguida por sua sombra que custara a abandonar as cobertas quentes e
macias. Seus pezinhos pequenos mais firmes se precipitaram pela escuridão embalados pelas quase audíveis batidas de seu
coraçãozinho saltitante. Ia para o farol. Era de lá que enfrentaria o inimigo
atroz. Ia escorregando pelo caminho, sentindo a tempestade fustigar lhe o rosto
e roubar-lhe o ar. Sentia-se congelada, mas viva, muito viva, como se o demônio da
tempestade mandado para assustá-la revelasse uma reserva de forças e coragem
inimagináveis. Seu pequeno corpo curvado, enregelado, açoitado pela chuva e
pelo vento teimava em não ceder. E cada passo era um triunfo. Uma bofetada na cara
da tenebrosa procela. Chegou a porta do velho farol, a chave sempre na
tranca. Girou com certa dificuldade. Mas pelos dedos congelados do que pela
idade do metal que já vira muitas maus tempos. Abriu, escuridão e silencio
a fizeram estacar. Um raio iluminou os céus e o interior da velha torre de
pedra. Era o demônio a zombar dela. Outro explodiu em resposta. Lá fora mar e
céu se uniam numa dança louca, rebentando contra as rochas e o
píer que gemia sob a sinfonia infernal de
força e poder. Era o inferno na terra. Deu-se conta que não estava de
pé. O último raio a fizera tremer tanto que caíra ao chão tremendo como
uma ...
uma... criancinha... Não, não ia ser derrotada assim tão fácil.
Levantou-se
lenta mais determinada e para seu assombro não sentia mais o frio.
Sorriu por
dentro imaginando se a mesma febre que levara sua mãe aos penhascos
agora viera
cobrar a filha. Seria forte. Seria mais forte, dizia de si para si. E
passo a
passo venceu a escuridão e o rugido da tempestade. O demônio como ultimo
recurso começara a bater portas e janelas numa frenética algazarra
respondida
lá fora pela fúria do mar e do vendaval. Era o inferno na terra. Chegou
ao
último andar dos doze que a levavam ao topo e ironicamente percebeu que o
último passo coincidira com um “amém” rouco que lhe escapara da
garganta. Abriu
a última porta. O vento a jogou do outro lado do cômodo. Caiu
sentada. Parecendo um boneco abandonado. Ao rolar mordera a língua e uma
nesga
de sangue escorria pelo canto da boca.
Numa distração do demônio saltou para fora e encarou a tempestade no exato
instante em que fendia o mar. Um relâmpago serpenteou pela escuridão e foi
explodir numa gargalhada insana para além do horizonte. A menina por uns
instantes se quedou fascinada pela fúria cega. Por um segundo ou dois duvidou
de seus planos. Mas antes que sua mente argumentasse, pezinhos velozes a
jogaram contra a murada, último bastião entre a sanidade e a loucura. Foi de lá
que com uma voz tão cortante quanto os trovões gritou o nome da mãe até não
mais poder. Gritou, insultou, implorou para mar devolver sua amada. A tempestade
rugiu desafiadora. O mar bradou que não soltaria. E as lágrimas quentes da
menina por um segundo calaram o céu e o mar. Mas a tempestade impiedosa cobrou
ânimo e veio de ímpeto contra aquele corpinho frágil jogando-a no fundo do
aposento de novo. Uma onda enorme veio lamber a base da grande sacada por onde
se debruçava. A menina vencida, sentiu suas últimas forças a abandonarem e
explodiu num choro profundo... A
tempestade explodia lá fora, todos os demônios agora soltos fustigavam o mar
que como um monstro disforme abria sua boca procurando alguém tragar. Não tinha
mais forças para gritar, nem para se mexer, se viu sozinha, gelada, encharcada
na escuridão, o grande plano de resgatar sua mãe das entranhas do mar agora lhe
parecia ridiculamente tolo... Mas foi nesse momento, pouco antes de desmaiar
que se sentiu envolto em grande calmaria, aninhada em braços ternos. Estava a
desmaiar ou a se tomada num colo macio e quente. Seu último suspiro consciente
trouxe-lhe a lembrança de um abraço de materno. Tinha vencido a tempestade. De volta aos braços da mãe.

3 comentários:
NUNCA DESISTA POR CAUSA DA OPINIÃO DOS OUTROS
Olha, nem sempre a opinião das pessoas será como o senhor espera.. Então se uma pessoa não gostar ou não achar tão bom.. Deixe a opinião dela, mas as vezes é pq a pessoa não gosta daquele tipo. Mas nunca jogue nada fora e nem desista por opinião dos outros. Algumas pessoas podem não gostar, mas lhe garanto que a maioria irá gostar.
Muito bom, Walter! Engraçado é que quando estamos em meio às tempestades, não nós damos conta de que a calmaria pode ser alcançada de dentro do turbilhão.
Belo texto, música tranquila e gostosa. Parabéns amigo!!!
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