sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Eu e Ela



Eu e Ela

Na pequena vila onde morávamos todos se conheciam, virtudes e vícios. Os únicos forasteiros eram os ventos que sopravam do leste trazendo os cheiros do mar, da grande floresta negra e do vale que nos cercava. E as vezes para minha sorte, impressão minha ou não,  traziam o cheiro dela.  É que aprendi a adivinhar-lhe a presença pelo perfume, pela eletricidade no ar, pelos silêncios cúmplices. Então me preparava para ser surpreendido por ela, num ato, num gesto, palavra solta no ar que  cravasse em minha memoria, em meu coração. Mas para ela eu, meu nome, minha casta eram tão estranhos como o vento. De mim nada sabia, eu, jardim sem flor.
Já matei dragões por ela, já a salvei de incêndios imensos, domei  as tempestades e cavalguei os raios de Thor.... Mas ela não me vê. Não me percebe... É a sina dos aldeões, triste sina ser invisível, ser o orvalho encantado pela estrela...  Para ela e para muitos sou só um machado, um pastor de ovelhas. Mas um dia eu serei o rei-guerreiro, matador de dragões. Os velhos se contentam com o respeito, quero ser temido e admirado por todos.  Amado por ela. Um dia serei a estrela que brilha do lado dela.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Deserto do Líbano



           

            Fazia cinco dias que viajávamos pelo costado do deserto.
            E meus olhos não cansavam de ver maravilhas.
            Nossa jornada prosseguia entre a estreita faixa montanhosa e as
            cintilantes  areias  vermelhas.
            Cada noite um oásis para descansar.
            Era a hora mágica.
            Os rudes e silenciosos mercadores se transformavam em crianças felizes.
            Todos aconchegados à grande fogueira que inundava de sombra e luz o rosto
            sereno das barracas.
            Era hora de histórias e lendas, heróis e fantasmas.
            Contávamos a volta da fogueira nossas venturas.
            Comíamos, bebíamos e dançávamos.
            As estrelas risonhas brincavam no céu.
            Eram outras fogueiras, outros irmãos que se foram.
            Em meio a todo esse encanto, não longe dali, rugiu terrível um leão.
            E antes que pudéssemos nos recuperar, rugiu mais alto e ameaçador ainda.
            Meu guia, um velho e experiente tuaregue,  olhava-me tranqüilo por entre as
            Labaredas da fogueira.... Devolvi o olhar com inquietação e perguntei se ele
            Também, a despeito de toda experiência que tinha, não sentia medo.
            Ele me olhou fundo na alma, deu uma longa baforada em seu cachimbo. Olhando               
            a fumaça disse:
            - Realmente, não.
            Temo mais os ventos silenciosos.
            Eles lentamente, grão por
            grão movem as areias, movem as dunas movem os desertos....
            Não temo o leão que ruge,
            Temo as obras silenciosas do vento.
            Ele voltou a me encarar por entre as labaredas e sorriu-me tranqüilo.
            Não sem delicadamente repousar a mão sobre o cabo do alfanje em seu cinto.
            E voltou a sorrir-me de novo...
            E o vento soprou manso incendiando a fogueira,  as estrelas. E o meu coração.  

O meu Amado





Vem-me como ondas, o toque da Tua mão.
Ondas mornas e delicadas... Frescas e travessas...
O sol brilha quando sorris para mim e com dedos mágicos tocas meus cabelos.....
Cerca-me por todos os lados num abraço doce... firme, mas suave..
Sinto a palma das tuas mãos, nas plantas dos pés..
E sei que sou protegido...embalado...contigo volto a ser o menino...
É tão bom quando me brindas com gotas de sol...
E o vento...Que maravilha é o vento,
Cheio de cheiros e estórias,,
Cheio de tempos e memórias.
O vento... o vento....forte e tempestuoso, violento e.. grandioso...
Mas sublime e amigo, mas sutil e doce......
Suavemente penetras por entre as janelas e frestas
E vem tocar-me o rosto....
Assim é o Senhor de todas as coisas e do meu coração.

O meu Amado vem
Silencioso e travesso....Cerca-me e sorri-me...
Ninguém me ouve o coração como Ele,
Ninguém me sonda a alma como teu olhar...
Suave e doce é o meu Senhor,
O Amado meu....

Vidas Simples




Houve um tempo...a muito tempo...
Onde a vida era simples.....Terras sem dono, corações sem dono....
Poder-se –ia escolher entre os quatro gênios e segui-los....
Um homem podia se deixar guiar apenas por suas paixões...
Ele podia sempre acreditar que por detrás das montanhas haveria campos e mais campos.
Que não morreria em vão, que envelheceria com sabedoria e respeito
Sabia que se fechasse os olhos e contasse..As estrelas estariam sempre lá.
Só havia um código...o Velho Código...
As trevas ainda não tinham aprendido a se disfarçar de luz...
O mundo era jovem, a terra era jovem....
Valia a pena morrer pelo que se acreditava, pois o que se acreditava era eterno...
Havia fogueiras, e dançávamos ao seu redor...
Havia estrelas e elas desciam para dançar também....
E aqueles que não eram filhos de Adão e de Eva, nos amavam
Nossos rostos suados e felizes, nossos olhos brilhantes no calor da chama...
Corpos nus...almas livres....A terra era jovem.
E não havia fogo que queimasse mais do que nossa paixão....

Dia Vermelho




Um dia vermelho...
Um dia de pendões e de bandeiras.
Nosso último dia sobre o sol do medo e da vergonha.
Pois nesse dia, neste campo...Cadeias serão quebradas.
Abram os corações, cavaleiros...Liberem as Fúrias de dentro de vocês
Serão o sangue deles a gelar nas veias,
Nesse dia em que com sangue lavaremos nossa terra...
Deixem rugir o leão gritem sobre os trovões os seus nomes.
Neste dia a mais forte das armas não será a espada, mas a vontade de ser livre.
Neste dia vermelho.
Abram caminho por entre as fileiras
Destrocem seus escudos
Despedacem seus capacetes
Quebrem as lanças
Derrubem suas muralhas..O dia chegou.
Nossos mortos serão sagrados
Nossos mortos serão heróis...
É uma dia de glórias irmãos...
Um dia vermelho.


Assim marcharam os exércitos para o campo
Ser livre estava acima de viver ou morrer
O cetro de opressão seria quebrado.
Nenhum de nós voltaria em correntes
Nesta terra, sob esse sol ou nos Elísios
Seríamos livres mais uma vez
A última batalha é aquela em que já não há mais nada o que perder....
Um dia de glória...
Um dia vermelho.